Fonte: Agência BOM DIA

A estatura não ajudava muito: 1m55. Logo ela, que sonhava em ver o mundo do alto, o horizonte limpo de cabeças, costas humanas, árvores, carros grandes. O olhar esbarrava em tudo, nem o salto alto a livrava desse olhar picado, incompleto. Até que um dia a moça baixinha conquistou uma espécie de cadeira cativa sobre rodas. Há exatos seis anos, Elisângela Pereira, 32, foi admitida na ETCD (Empresa de Transporte Coletivo de Diadema) como motorista de ônibus.

De ônibus grande, faz questão de dizer. É a única motorista mulher a conduzir o modelo ‘padron’ – outras duas foram contratadas pela companhia para dirigir micros. “Me sinto poderosa, maior. Mais alta. É o emprego dos meus sonhos”, revela. Foi como se encompridasse as pernas.

Elisângela aprendeu a dirigir aos 12 anos. Quando completou 18, tirou habilitação e abraçou de vez o volante: tornou-se instrutora de auto-escola. Junto com a nova profissão, vieram os olhares desconfiados. “Inclusive algumas mulheres duvidavam da minha capacidade. Tinha que me esforçar em dobro. Porque, se errasse, iam dizer que errei porque sou mulher, e não porque todo mundo erra. Ainda me cobro muito.”

Na auto-escola, passava pelos ônibus e imaginava como seria conduzir um veículo grandalhão. Era fascinada por eles, embora sua única experiência fosse o banco de passageiros. Em 2004, ficou sabendo do concurso da ETCD no último dia de inscrição. Titubeou na hora de preencher a ficha. Não sabia se colocava um xis na opção “motorista” ou “cobrador”. “Achava que não era para mim, que não seria capaz de dirigir.”

Divorciada do marido, com quem teve dois filhos – Guilherme, hoje com 14 anos, e Vinícius, 12 – , Elisângela estava desempregada e em depressão. Não tinha recursos para sustentar os meninos, e teve de entregá-los ao pai. Passar no concurso era questão de sobrevivência.

“No dia da prova prática, até o meu rosto tremia. No dia anterior, pedi a um vizinho que tinha um ônibus para me dar uma aula. Não consegui nem tirar o ônibus do lugar. Achei que ia ser um vexame completo. Mas não podia desistir”. Pois ela fez a prova. O ônibus não empacou. E a baliza foi perfeita. “Muito marmanjo derrubou os cones. Para mim, foi uma superação.”

Respeitada pelos colegas e pelos passageiros, Elisângela segue a vida como conduz o veículo gigante. Com destreza, paciência e disciplina. Os filhos mais velhos continuam morando com o pai, e passam os fins de semana com ela. Paga pensão ao ex-marido, não porque o juiz mandou, mas porque acha justo pagar.

Casou-se de novo, teve outro filho, e separou-se há seis meses. Fez lipoescultura e escova progressiva. Todos os dias acorda às 3h45, embora entre às 6h no trabalho e leve menos de dez minutos para chegar à ETCD. “É que não saio de de casa sem chapinha. Nem pensar!”. Ainda prepara a mamadeira do Artur, 3 anos, antes de deixá-lo com a babá. Enquanto o pequeno se alimenta, gruda no espelho. Maquiagem, decote, salto alto. E o sorriso de sempre no rosto.

No único dia de folga que tem na semana, resolve todo o resto. Vai ao salão, coloca vermelho nas unhas, faz o cabelo. Passa no supermercado, compra os ingredientes que faltam para a lasanha dos meninos. “Adoro cozinhar. Ainda vou fazer faculdade de Gastronomia.” A motorista quer ser chef. Talvez se despeça um dia do volante. Sem dor, nem choro. Porque já é dela a vida vista de cima.