Fonte: Rede Bom Dia
Levantamento da PM revela que os condutores paulistas continuam abusando da mistura de álcool e direção
Dirigir no estado de São Paulo está mais perigoso. Dados obtidos pelo BOM DIA junto à Polícia Militar revelam que, mais de três anos após a implantação da Lei Seca, os motoristas insistem em dirigir sob influência do álcool e estão provocando mais acidentes.
Segundo o Comando de Policiamento Rodoviário, o registro de ocorrências de embriaguez ao volante nas estradas paulistas saltou de 2.396, em 2010, para 5.479, no ano passado, um aumento de 128,67% — e isso sem considerar os motociclistas, categoria em que o aumento foi ainda maior, de 167,05%, passando de 258 para 689 casos.
A consequência desses 6.168 motoristas dirigindo embriagados foi o aumento de acidentes: foram 927 casos sem vítimas e 789 com vítimas — 44 deles envolvendo mortes. Em 2010, esses números foram, respectivamente, 652 e 479, com 27 ocorrências envolvendo vítimas fatais.
Para Maurício Januzzi, presidente da Comissão de Trânsito da OAB-SP, a alta é reflexo de um erro da legislação de trânsito. “Os motoristas já têm um domínio maior da Lei Seca e sabem que não precisam fazer os testes. Isso é um erro. Para a OAB, o limite de tolerância de álcool no sangue deveria ser zero”, diz.
Ao lado de pessoas afetadas por acidentes, como Rafael Baltresca, que perdeu a mãe e a irmã atropeladas na calçada de um shopping,Januzzi defende um Projeto de Lei de Iniciativa Popular que pede punições mais severas para motoristas alcoolizados.
CIDADES/ O aumento de casos envolvendo condutores bêbados não cresceu apenas nas estradas. Nas ruas da Capital, das 221.079 pessoas submetidas ao teste do bafômetro no ano passado, 4.707 estavam alcoolizadas. Em 2010, foram 4.258 casos entre os 156.266 motoristas que fizeram o teste.
Há, porém, locais em que os motoristas parecem estar mais conscientes. É o caso da região de Sorocaba, que compreende 79 municípios, onde um levantamento mostra que o número de casos de pessoas alcoolizadas ao volante caiu de 703, em 2009, para 245 em 2010.
PRISÕES/ Apesar do grande número de autuações, poucos motoristas são presos. Na Capital, por exemplo, 38% dos condutores alcoolizados foram detidos no ano passado.
“Sabemos que beber e dirigir não funciona e não podemos com isso, mas há brechas legais. Muitas vezes, é nítido que o motorista está embriagado, mas ele é encaminhado para o hospital sem fazer os exames. Quando sair, dirá que dormiu ou algo assim. Como provar que ele estava bêbado? Quem não deve não teme. Todos deveriam fazer os exames”, desabafa um policial.
Campanha recolhe assinaturas para lei de trânsito mais rígida
Em outubro do ano passado, o caso do motorista que atropelou e matou dois garis na Marginal Pinheiros, em São Paulo, ganhou destaque na imprensa após Fernando Mirabelli — que apresentava sinais de embriaguez, mas se recusou a fazer os exames de dosagem de álcool no sangue — ser liberado mediante uma fiança de R$ 50 mil.
Segundo o advogado Maurício Januzzi, a fiança é estipulada de acordo com o poder econômico do motorista e o processo, em casos como esse, pode demorar até três anos para ser julgado em 1ª instância.
“O bafômetro e o exame de sangue são funcionais porque determinam a quantidade de álcool no sangue, o que o exame clínico não faz. Ele apenas afirma se a pessoa está embriagada e isso não serve como prova nem para a multa e nem para o crime. A partir do momento em que o Contran (Conselho Nacional de Trânsito) emite uma resolução afirmando que os limites de tolerância serão observados, indiretamente passou a se adotar que é preciso ter uma comprovação da dosagem”, diz Januzzi.
Para o advogado, a lei deveria ser mais rígida com os crimes de trânsito, principalmente com os casos com vítimas fatais, daí o abaixo-assinado disponível no site www.naofoiacidente.org, que recolhe assinaturas para pedir mudanças na legislação.
O que diz a Lei 11.705, a famosa Lei Seca
Motoristas flagrados excedendo o limite de 0,2 grama de álcool por litro de sangue podem pagar multa de R$ 957, ganhar sete pontos na carteira e perder o direito de dirigir por um ano. Quem for apanhado com mais de 0,6 grama de álcool por litro de sangue pode ser preso, com pena de até três anos.